Rádio, televisão, computador, computadores em rede, internet, “telefones móveis”. As novas tecnologias da informação e comunicação iniciaram seus processos de formação no século 20 e se consolidaram como elementos constitutivos de nossa humanidade. Elas enfatizam a tendência Ciborgue do homem contemporâneo, que nada mais é do que a imbricação homem-máquina e não há como pensar hoje em termos de humano, sem considerar os processos de artificialização da sociedade.
Desde o surgimento da diferenciação “homem/animal/natureza” , há muitos milênios, os artefatos são criados levando o homem ao processo de desnaturalização na forma de atuar no mundo. O artificial incorpora, crescentemente, lugar de destaque em conseqüência da ciborgização da cultura e sua tendência à virtualização. Sem esse pré-requisito seria difícil colocar a disposição do mundo a possibilidade de acesso a “tudo”, o que traz grande incerteza para o próprio rumo da humanidade. Se a imprevisibilidade é uma constante na trajetória do homem, com os novos elementos tecnológicos para informação, comunicação e produção do conhecimento, a previsibilidade ficou ainda mais difícil.
Não fugindo a estupefação de todos os segmentos sociais, a educação busca incorporar as novas tecnologias em suas dinâmicas para que as escolas e as pessoas que nela transitam deixem de ser meros consumidores de informações produzidas em outros lugares (geralmente centralizados e distantes) e transforme as escolas, professores e estudantes em produtores de cultura e conhecimento como condiz a um adaptado Ciborg.Ao que parece, faz-se um tremendo esforço por parte desta atual geração de educadores em compreender qual o caminho se deve tomar para chegar a um modelo de realidade social, econômica e política que quebre a hegemonia neo-liberal de escrever o mundo, através do uso das novas tecnologias, as quais têm aberto campos diversos para a aproximação do conhecimento, mesmo que não seja de forma acessível a todos. Talvez o que falte seja o distanciamento histórico necessário para que a naturalização dos processos de artificialização sejam percebidos mais facilmente. Possivelmente, as gerações nascidas neste tempo tecnológico percebam e entendam em uma perspectiva bem diferente as construções sociais que vêm se formando e consigam atuar com mais propriedade na busca de soluções aos problemas atualmente apresentados.
Segundo o educador Alfredo Veiga-Neto, professor do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
é no processo educativo que nos apropriamos, implícita ou explicitamente, dos mecanismos para entrarmos no jogo da vida social, então educar é acolher o outro e apresentar-lhe a nossa cultura. Ocorre que os elementos culturais emergentes a partir de meados do século 20 se transformam numa velocidade nunca vista antes. Em conseqüência e em função desse tempo de maturação “perdido”, ao mesmo tempo em que a atual cultura precisa acolher
novos elementos de transformação social, os próprios “acolhedores” têm que ser “acolhidos” e é muito comum hoje a nova geração superar a geração anterior em alguns aspectos do conhecimento e apropriação tecnológica que em tese deveria ser comum a todos.
Claramente vivemos momentos de transição e até que essa “ciborgização” seja completada (se é que há essa possibilidade) os processos educativos precisam ser desancorados e sair em busca de novos portos, sendo que o objetivo principal agora não é a chegada a um único porto, mas o caminho percorrido no vasto oceano do conhecimento, para a chegada em multiplos portos. A educação contemporânea ou as novas educações devem se propor a atualizar as diversas potencialidades culturais, a valorizar o singular, mas sem perder de vista o plural e as estruturas das novas tecnologias da comunicação e informação são potencialmente adequadas a este processo.
Luciana Ferreira
Artigo elaborado para a disciplina Educação e Cibercultura/Programa de Pós-graduação em Cibercultura/FACOM/UFBA.
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