Ponto de cultura sem cultura para as NTIC's
Os pontos de cultura implantados pelo Ministério da Cultura em diversas regiões brasileiras trouxeram a possibilidade de fortalecer a cultura, a identidade e a produção de conteúdos regionais para alcançar também a escala nacional. Num contexto sócio-cultural em que se discute o redimensionamento dos eixos de produção para fora dos tradicionais pólos no Rio e em São Paulo, as novas tecnologias da informação e comunicação (NTIC’s) são fundamentais para dinamizar, baratear e facilitar a expansão de projetos que antes esbarravam em questões básicas como financiamento.
Esse seria o quadro ideal. Seria porque, em Aracaju, por exemplo, o ponto de cultura audiovisual Figuras em Trânsito, desenvolvido pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Centro de Estudos Casa Curta-SE, enfrentou dois problemas básicos. O primeiro, o velho financiamento, feito de forma muito irregular pelo Ministério da Cultura sob regras que os próprios produtores culturais não conseguem compreender e sobre as quais o próprio ministério não consegue lançar luzes bastantes. O segundo, que me parece ainda mais grave, diz respeito à apropriação equivocada das NTIC’s.
Antes, porém, é preciso esclarecer o trabalho realizado: 30 alunos de escolas públicas (20 da Universidade Federal de Sergipe –UFS – e 10 de escolas de segundo grau) foram selecionados para participar de um curso sobre audiovisual com a promessa de aprender, ou pelo menos conhecer, desde questões mais teóricas como a história e linguagens do cinema, até conteúdos mais práticos como fotografia e edição de imagens. Até aí, tudo bem.
Para começo de conversa, o dinheiro que deveria ser investido num curso programado para dois anos foi reduzido de quatro para três parcelas semestrais, ou seja, o cronograma precisou ser apertado em 18 meses, em vez de 24. Não bastasse isso, a seleção dos alunos carecia de critérios que definissem mais claramente o perfil do estudante desejado, seus direitos e deveres, o que gerou evasões, substituições e descontinuidades no percurso. Não que ele devesse ser linear, mas o estudo em grupo pressupõe a manutenção de um ritmo mínimo.
Considerando estes fatores estruturais, os resultados não chegaram ao esperado. Não houve uma produção significativa e tudo ficou resumido a seis curtas de um minuto cada, feitos ainda no início do curso com o auxílio luxuoso de representantes do MinC que estavam em Aracaju para participar do Festival Luso-Brasileiro de Curtas-Metragens de Sergipe (Curta-SE), realizado pela Casa Curta-SE com o patrocínio master, porém insuficiente, da Petrobras. Não se conseguiu formar alunos que redirecionassem suas intenções profissionais. E o mais grave: não há no legado do curso pessoas com a consciência colaborativa que permeia ou, pelo menos, deve permear o princípio ativo dos pontos.
A explicação mais fácil para tudo isso? A irregularidade dos repasses. A mais próxima da realidade? O despreparo da equipe para lidar com a novidade. Muito mais gerada pela falta de preparo do que apenas por qualquer tipo de má vontade, a utilização das NTIC´s pelo ponto de cultura foi, sem dúvida, muito aquém do que se gostaria. Isto porque o esquema de trabalho montado reproduziu em quase tudo o esquema tradicional das escolas de qualquer assunto. Professores, palestras, aulas e novas tecnologias como acessórios que facilitam a vida regular. O diferencial da ausência de lucro não se mostrou suficiente para mudar a estratégia.
Por outro lado, os alunos não sabiam muito bem o que estavam fazendo ali, não sabiam o que esperar, muito menos o que buscar. Havia professores capacitados para a técnica do cinema, o estudo da linguagem audiovisual, mas não havia facilitadores conscientizados sobre o que fazer com as tecnologias de que dispunham. O pré-requisito material havia sido dado. Havia computadores conectados. O que não havia era uma metodologia de trabalho que fizesse o melhor proveito possível disso.
Do ponto de vista da comunicação, a construção de um portal inerte, distribuidor de informação, foi o primeiro equívoco. A solução encontrada foi um blog, raramente atualizado. Faltava a ele a característica básica para incrementar seu conteúdo: disposição para discutir, dialogar. Para sair da perspectiva negativa, pode-se dizer que foi possível articular uma equipe disposta a trabalhar no festival de cinema uma vez por ano e, às vezes, sem receber nada por isso. Houve algum barulho na imprensa e, naqueles em que o desejo de seguir carreira já existia, ele foi estimulado. Infelizmente, a maior parte do esforço parece ter se perdido.
Disciplina: Educação e Cibercultura / Professor: Nelson Pretto
Aluno: Rodrigo Antonio Lima da Rocha
Data: 24/08/2007

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