Um outro olhar sobre a Inclusão Digital
(O Falso Espelho, René Magritte, 1928)
*** Compreensão ***
Estamos vivendo diante de uma rápida penetração das Tecnologias da Informação e da Comunicação em diversos setores da sociedade e das nossas vidas pessoais. Nos países mais desenvolvidos tecnologicamente a grande maioria da população tem acesso a esse mundo que se constitui a partir das relações com as novas tecnologias. Na América Latina e no caso particular do Brasil, onde os índices de desigualdade social são bastante elevados, a questão do acesso a essas tecnologias torna-se fundamental.
Por conta disso, o termo Inclusão Digital se tornou um jargão bastante utilizado pela imprensa, políticos, empresários e estudiosos de variadas áreas do conhecimento. Além disso, a Inclusão Digital vem se tornando baliza de diversos projetos de intervenção social de iniciativas públicas e privadas.
Grande parte dos estudos e abordagens sobre a Inclusão Digital são direcionados por pretensões macro teóricas, fazendo prevalecer uma visão um tanto quanto abstrata e generalista da questão. Poucos deles buscam se aproximar do tema a partir de um acompanhamento mais de perto. Acredito que esta forma de compreensão não é suficiente, ela está mais voltada a uma visão de fora para dentro. Como forma complementar, faz-se necessária também uma análise de dentro pra fora, não apenas analisando documentos, dados quantitativos e objetivos, ou ouvindo as pessoas que são responsáveis pelo projeto. Esta visão só poderemos ter entrando no cotidiano dos projetos e das comunidades, vivendo os seus dia a dia, no intuito de observar como se dá essa apropriação, através de uma perspectiva mais compreensiva e contextualizada. Proponho um olhar antropológico sobre a Inclusão Digital.
*** Ação ***
Partindo de um olhar de dentro, do ponto de vista das comunidades e dos indivíduos que a constituem, teremos mais subsídios para elaborar e por em prática, juntamente com os grupos locais, projetos que respeitem as diferenças de cada lugar e que possam atender às demandas sócio-culturais específicas. Assim, poderemos aliar aos aspectos técnicos, questões culturais, sociais e econômicas, entendo as novas tecnologias não como um fim em si, mas como um meio para se alcançar objetivos maiores.
Apesar da necessidade de se estabelecer uma política pública de Inclusão Digital que articule e faça interagir os diversos programas mantidos pelos órgãos de governo, muito dificilmente alcançaremos um modelo único de projeto de intervenção que atenda de forma indiferenciada os diferentes contextos. No entanto, acredito que podem ser definidos pressupostos que sirvam como uma possível orientação a futuros projetos. Por não concordar com grande parte dos usos feitos do termo “Projeto de Inclusão Digital” e não tendo como pretensão um modelo universalista, acredito no papel dessa orientação como sendo um mecanismo de apoio à elaboração de “Propostas de Apropriação Sustentável das Novas Tecnologias” pelas comunidades, em parceria com os diversos setores da sociedade.
As pessoas da comunidade deverão ser protagonistas da iniciativa. É importante que haja, desde antes da elaboração da proposta, representantes comunitários presentes nas equipes deliberativa e executora da iniciativa. O primeiro questionamento a ser feito é se existe de fato a necessidade de ser incluído? Quais transformações isso poderá trazer a comunidade? Para ter validade e legitimidade junto aos participantes, a iniciativa não pode ser imposta, pelo contrário, deve vir de um consenso, onde a comunidade tem voz ativa e decisiva.
Resolvidos esses questionamentos, a próxima etapa é a elaboração da Proposta. A partir de políticas de utilização específicas e de referenciais pedagógicos interdisciplinares, tenta-se tratar dos temas de interesse local relacionando-os a um modelo de aprendizagem que busque atender às diferenciadas demandas de forma participativa e colaborativa.
Depois de elaborada a proposta e providenciado os recursos materiais necessários, pode ser iniciada a etapa de capacitação e de usos livres das tecnologias. Visando sempre estimular o exercício da crítica, a produção de conteúdo local e a interação, serão formados agentes multiplicadores da própria comunidade que ficarão responsáveis por compartilhar os conhecimentos apreendidos e por gerir o funcionamento do local onde serão realizadas as atividades.
Como as etapas serão realizadas tendo como base a proposta elaborada com a participação de membros da comunidade, aumentam consideravelmente as possibilidades de obtenção de uma apropriação coletiva crítica e independente das novas tecnologias.
Agora podemos entender melhor o porquê da utilização do termo “Propostas de Apropriação Sustentável das Novas Tecnologias” e não “Projeto de Inclusão Digital”. Proposta porque não é uma coisa previamente definida, inflexível, trazida de fora. Apropriação, pois a idéia não é incluir a comunidade no mundo digital, mas sim trazer as possibilidades do mundo digital para dentro da comunidade. E, finalmente, Sustentável porque pretende manter as atividades a partir de seus próprios recursos, de forma autônoma e independente.
Como exemplo de iniciativas que se aproximam destas idéias trazidas no texto, podemos citar o Programa Cultura Viva, mantido pelo Ministério da Cultura, e o Projeto Onda Solidária de Inclusão digital, desenvolvido em conjunto pelo programa Onda Digital, Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias - GEC da Faculdade de Educação da UFBA, a Associação de Fomento a Economia Solidária - BanSol da EAUFBA e com o apoio do Núcleo de Manutenção da Escola Politécnica - NUMEP.
"Debruça-se a alma neles, trazendo para si o mundo.
Afinal, janelas são feitas pra se olhar de dentro pra fora.
Mas de fora pra dentro o que poderia se ver?
O que diriam hoje?
Se eu pudesse observar através desse olhar
eu diria que há muitas e carregadas nuvens.
Sim, hoje chove dentro.
Dentro do meu país."
Autor: Yuri Bastos
Fonte da imagem e do poema: sealvia.blogspot.com/2005_10_01_archive.html
OBS: Artigo jornalístico elaborado como avaliação da disciplina Educação e Cibercultura do Curso de Especialização em Cibercultura da FACOM

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